Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Das Kapital, de Karl Marx (150 Anos)

Relato de um encontro inesquecível

Arte de Ciro Yoshyiassi para o Simpósio Internacional que reuniu especialistas em edição e história editorial da obra de Karl Marx
Entre 28 e 31 de agosto o Programa de Pós-Graduação em História Econômica promoveu uma série de atividades para celebrar o aniversário de 150 anos da primeira edição do tomo I de O Capital, obra maior do filósofo Karl Marx.
Dois mini-cursos ministrados por especialistas se desenvolveram simultaneamente. Sob a coordenação de Jorge Grespan, pudemos aprender muito sobre o processo de edição dos manuscritos de Marx. Rolf Hecker e Carl-Erich Vollgraf compuseram a equipe editorial da obra completa de Marx e Engels, a chamada MEGA (2), considerando que a primeira foi realizada nos anos de 1940, por Riazhanov.
O segundo mini-curso foi ministrado pelo Professor Horacio Tarcus, da Universidad Nacional de San Martín e diretor do CeDinCi (Centro de Documentación y Investigación de la Cultura de Izquierdas), de Buenos Aires. Sua pesquisa se volta para a problemática da produção e recepção da obra de Karl Marx na América Latina. As aulas se desenvolveram no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, entre 28 e 30 de agosto.
Os especialistas se reuniram no último dia das atividades, quinta-feira, 31 de agosto, em uma mesa redonda marcada por muita descontração e informações relevantes sobre a edição da MEGA e sobre a trajetória editorial de El Capital nos países hispano-americanos.
É interessante observar a engenhosidade do processo editorial dos manuscritos de Marx e Engels. Para além do aspecto anedótico - e não menos verdadeiro - da dificuldade de se decifrar a caligrafia do Mouro, vale acrescentar que todo o trabalho não deve descuidar de uma verdadeira crítica genética dos textos, além de conhecimentos profundos dos princípios da filologia e da ecdótica. O desenvolvimentos de expertises e técnicas editoriais, além dos aspectos tecnológicos, cujo salto se deu nas duas últimas décadas, certamente concorreram para um trabalho mais minucioso e preciso, o que faz dessa nova versão algo assombosamente maior e melhor elaborado do que o trabalho de escriba medieval realizado durante a geração de Riazhanov. 
Sabe-se, por exemplo, graças às contribuições de Rolf Hecker, que a contribuição de Engels para o segundo tomo de O Capital se distancia bastante das anotações deixadas por Marx. Porém, como Tarcus observa, em sua intervenção, já em vida de Marx é preciso refletir sobre as múltiplas versões de O Capital, o que se explica pelas traduções/versões realizadas sobre um texto complexo, escrito originalmente em alemão, mas também pela intenção de se atingir a um largo público. Finalmente, vida e obra se articulam. Marx, na medida em que refletia sobre sua própria obra, após a publicação do primeiro tomo, cuidava, ele mesmo de a rever em um trabalho contínuo. 
Da esquerda para a direita: Horacio Tarcus, Jorge Grespan,
Rolf Hecker, Carl-Erich Vollgraf
As intervenções deixaram uma questão importante sobre essa grande empresa editorial que se concretiza no século XXI: a MEGA (2) realiza o sonho de uma edição crítica, feita por eruditos e cuidadosamente planejada, com todos os aparatos possíveis e imagináveis desde a era de Gutenberg. Um Aldo Manuzio não teria feito melhor, pois se lhe sobrava erudição, faltavam-lhe os recursos informacionais de que dispomos hoje. No entanto, passados mais de 50 anos daquela primeira MEGA, esta parece vir a luz sem o senso profundamente político da obra de Marx e Engels, bem como de seus múltiplos editores, revisores, tradutores e comentadores. Estaríamos diante de uma MEGA contraditoriamente depurada de seu passado?


Horacio Tarcus - anotações de viagem

Horacio Tarcus e, ao fundo, Eduardo S. Cunha, na Biblioteca Edgard Carone, em Itu.
 Além das aulas e da mesa-redonda, Horacio Tarcus visitou importantes arquivos paulistanos. 
No Cedem, o Centro de Memória da Unesp, que guarda um dos mais importantes acervos da história da esquerda no Brasil, ele pode conferir o acervo de Astrojildo Pereira, dentre papeis de outros militantes brasileiros. 
Seu interesse em conhecer o Cedem é antigo, dado o contato estreito de Tarcus com alguns estudiosos e militantes nacionais, especialmente, com a obra de Edgard Carone, o primeiro a levantar questões sobre a trajetória editorial dos textos marxistas e da literatura do movimento operário no Brasil. 
Na verdade, Carone traz do Asmob, ou seja, da mesma coleção hoje guardada pelo Cedem, mas que nos anos de chumbo se encontrava em Milão, documentos que lhe permitiram reconstituir as ações editoriais de Astrojildo Pereira, nos tempos da fundação do PCB (1922). Esse material precioso abriu novos caminhos para o estudo do marxismo e das culturas de esquerda pela via editorial. Considerando a importância do Cedem, espera-se que o problema da falta de funcionários e o silêncio de sua diretora, que não respondeu ao nosso chamado, seja logo resolvido. Não fosse uma missão entre amigos e o interesse em apresentar a instituição ao nosso parceiro portenho, seu desejo não teria se realizado.
Elisabete Marin Ribas e Horacio Tarcus - Arquivo do IEB
No Instituto de Estudos Brasileiros-USP, ao contrário, as horas de visita foram muito bem aproveitadas, dada a receptividade costumeira de sua supervisora técnica, a pesquisadora Elisabete Marin Ribas. Tarcus ficou particularmente impressionado com a infra-estrutura do acervo e, claro, com a riqueza de seu conteúdo.
O Arquivo IEB USP surgiu em 1968, integrado à Biblioteca. A partir de 1974, com a chegada de sucessivos arquivos pessoais, o crescimento do acervo motivou seu estabelecimento como setor independente. Com o objetivo de receber, organizar, preservar e divulgar seus documentos, visando oferecer fontes primárias para pesquisas das mais diversas áreas, o Arquivo IEB atualmente reúne cerca de 500 mil documentos.
O acervo custodiado pelo Arquivo do IEB é fonte de pesquisas para brasileiros e estrangeiros, além de subsidiarem publicações e exposições de grande público pelo país e no exterior.
Dentro de seu precioso acervo encontram-se os arquivos pessoas de: Anitta Malfati, Aracy Abreu Amaral, Caio Prado Jr., Camargo Guarnieri, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Milton Santos, entre muitos outros.


A semana terminou com uma longa e agradável visita a Itu, onde se encontram depositados a biblioteca e o arquivo do historiador brasileiro Edgard Carone (1923-2003), que atuou como professor titular do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP
O acervo legado inclui raríssimos volumes publicados na primeira metade do século 20, obras de pensadores marxistas como Antonio Gramsci, Vladimir Lenin, Rosa Luxemburgo e Leon Trótski e as edições brasileiras do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels. 

A “joia da coroa” da biblioteca talvez seja a primeira edição francesa de O Capital, de Marx, responsável pela difusão do pensamento marxista na Europa, no século 19 – um volume que pertenceu a um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Astrojildo Pereira, em 1922.
Mas, como podemos ver na fotografia acima, o que mais interessou ao nosso convidado e, certamente, será motivo de seu retorno, foi a profusão de panfletos e opúsculos anarquistas, socialistas e comunistas que a biblioteca guarda. As primeiras edições brasileiras de O Manifesto Comunista constitui uma das riquezas do acervo.
Estuda-se, agora, a assinatura de um convênio entre a USP e a UNISAM, com a finalidade de aproximar pesquisadores, bibliotecários e arquivistas para a troca de informações, mas também de experiências em bibliotecas e fundos dessa natureza. A equipe de Itu, lideradara pela Profa. Maria Aparecida Borrego e pelos bibliotecários José Renato e Alzira ficaram particularmente animados com essa ideia.
Hasta luego, Tarcus!


Brevíssima nota sobre as primeiras edições de Das Kapital

A primeira edição do volume primeiro de O Capital apareceu em Hamburgo, em 1867, com uma tiragem de mil exemplares. Uma segunda edição, publicada em fascículos e revista pelo autor, viria a ser publicada entre junho de 1872 e maio de 1873. Em 1883, uma edição póstuma foi publicada sob a responsabilidade de Engels, com os acréscimos e correções baseados em notas manuscritas do autor e de duas edições anteriores: a segunda alemã e a primeira francesa.  Uma edição “definitiva”, pelo menos aquela que nortearia novos estudos e traduções ao longo do século XX, viria a lume em 1890, com alguns novos acréscimos de Engels, tirados, sobretudo, da edição inglesa traduzida por Edward Aveling e Samuel Moore. 
A edição francesa é especialmente importante, porque foi a partir dela que muitos leitores do mundo ocidental tiveram acesso ao texto de Marx.

Para saber mais, consulte os links:





quinta-feira, 27 de julho de 2017

A Biblioteca da Dieta do Japão e a Reconstrução Nacional

Kokuritsu Kokkai Toshokan


Tokio, Japão
Projeto: Mayekawa Associates, Architects & Engineers

A Biblioteca Nacional da Dieta do Japão foi fundada em 1948, um ano após a promulgação da carta constitucional, a qual zelava pela soberania do povo através do fortalecimento da Dieta, ou seja, de seu corpo palamentar. Pode-se mesmo dizer que a NDL – ou National Diet Library, como ficou conhecida no ocidente – nasce dos escombros de uma terra e de um povo devastados pela Guerra, donde sua importância simbólica para um país em reconstrução. 
Nos termos da lei, sua função primordial era a de assistir aos membros do parlamento com uma boa coleção de livros e documentação relativos ao sistema político e à legislação japonesa e, de modo mais abrangente, de franquear seu acervo ao leitorado japonês. Nesse sentido, ela adotaria o sistema das bibliotecas nacionais, a exemplo da Library of Congress, dos Estados Unidos, resguardando, inclusive, o direito do depósito legal.  
O fundo inicial se formou a partir de duas importantes e tradicionais instituições : a Biblioteca Imperial, de 1872 ; e as bibliotecas parlamentares, formadas pela Casa dos Pares, ou seja, por membros da família imperial nomeados pelo soberano; e por membros da Casa dos Representantes, os quais eram eleitos por sufrágio direto, de acordo com a Constituição de 1889. Notemos que as duas initiativas datam da Era Meiji, período iniciado em 1868, que conduziu a nação japonesa a uma série de medidas modernizadoras, baseadas em modelos ocidentais. As bibliotecas oficiais, nesse sentido, traduziam o espírito patriótico e fortemente identitário da nação japonesa.
Atrium do Edifício Anexo da NDL, Tóquio-Japão
Durante as primeiras décadas de funcionamento, a biblioteca permaneceu no Palácio Akasaka, em área anexa ao Parlamento, em Tóquio. Porém, o aumento progressivo do acervo demandou a construção de um novo edifício. Em 1968, era inaugurado, nas imediações da antiga sede, o prédio principal da NDL. Um anexo passaria a ser eridigo no final da década de 1980, constituindo uma extensão da face norte do prédio principal. Trata-se, todavia, de um projeto mais arrojado do ponto de vista arquitetônico : a iluminação natural perpassa as salas de leitura, dispostas ao longo de quatro andares, ao redor do atrium, através de uma claraboia instalada ao centro do teto. Mesmo os pisos subterrâneos são guarnecidos pela luz ambiente, graças ao sistema complexo de composição das salas em relação ao rés de chão. Os dois edifícios compreendem uma área de 148.000 m2. As estantes ocupam 53% do espaço construído e possuem capacidade para o armazenamento de 12 milhões de volumes.

A Biblioteca Nacional da Dieta compõe, hoje, uma verdadeira rede de bibliotecas. Além dos edifícios principal e anexo, inaugurados em 1968 e 1993, uma nova construção foi planejada para servir como depósito de reserva, em 2002, na cidade da ciência de Kansai. Mas o projeto mais notável por sua originalidade foi, sem dúvida, o da Biblioteca Internacional de Literatura Infantil, inaugurada em 2000 e concluída em 2002.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Österreichische Nationalbibliothek (Hofbibliotek), 1730

Em Viena, uma jóia barroca

Projeto: Johan Fischer von Erlach (1656-1723)

avstriae est imperare orbi vniverso, O destino da Áustria é de governar o mundo, Frederico III (1440-1493)


No limiar do século XVIII, o império dos Habsburgos atinge o seu apogeu, após a vitória contra os otomanos. Em 1711, Carlos VI (1685-1740) será coroado Imperador Romano-Germânico, Arquiduque da Áustria e Rei da Hungria, Croácia e Boêmia. Mas seus domínios vão muito além, pois atingem as terras da Sardenha, de Nápoles e da Sicília.
A Hofbibliotheke destina-se, então, à glória do grande Kaiser. Suas dimensões monumentais (77 m de comprimento, 14,2 m de largura e 16,6 m de altura) são apenas comparáveis a de uma catedral. O edifício se torna ainda mais expressivo em meio ao casario suntuoso em estilo Barroco que conforma a Josefplatz, embora nenhum supere a biblioteca em termos de extensão e luxo.
O pórtico de entrada é encimado por esculturas equestres, tendo Minerva ao centro. Mais abaixo, as inscrições latinas fazem jus ao sentido imperial que se atribui a essa instituição:
carolvs avstrivs de leopoldi avg f avg rom imp p p bello vbiqve confecto instavrandis fovendisqve litteris avitam bibliothecam ingenti librorum copia avctam amplis extructis aedibus pvblico commodo patere ivssit
m d ccxxvi
O mobiliário e as alegorias que conformam a Prunksaal, o salão da biblioteca, perfaz um capítulo singular na história do décor das instituições de leitura em estilo Barroco e Rococó. A planta, no entanto, é bastante simples e racional. Um longo corredor iluminado por janelas laterais, dos dois lados, distribui em perspectiva as salas dos livros. Os dois extremos foram decorados por temáticas diversas, que se opõem e se completam: a primeira foi denominada “Ala da Guerra” e a última “Ala da Paz”. As duas alas são separadas por um salão oval disposto no centro do edifício, dedicado à gloria de Carlos VI. O Kaiser se faz representar por uma grande escultura de Hércules instalada bem no centro da sala, sob uma cúpula decorada por pinturas trompe l’oeil, de Daniel Gran (1694-1757). O artista da corte faz uso de alegorias para narrar a história da edificação da biblioteca: em um céu populoso, vemos desfilar todas as artes que se encontram sob a proteção do monarca.

O salão oval foi reservado às coleções mais valiosas do Imperador, dentre as quais, a biblioteca de Eugène da Savoia (1663-1736), este sobrinho do Cardeal Mazarino que abandonou a corte de Luís XIV para servir à casa dos Habsburgos, onde realizou uma brilhante carreira militar. Sua fortuna e prestígio o introduziram na arte da bibliofilia, o que resultou em uma coleção de 18.000 volumes cuidadosamente selecionados e encadernados.